Pra quem tem menos de 45 anos fica difícil imaginar o que aconteceu em janeiro de 1985. Um festival de rock com mais de dez atrações internacionais de peso? Isso era um sonho, esse tipo de coisa a gente ficava sabendo que acontecia na Europa ou nos Estados Unidos, mas aqui no Brasil… Só dava pra acreditar na hora, na fila de entrada e com o ingresso na mão.

A situação era a seguinte: durante os anos setenta e começo dos anos oitenta pouquíssimos artistas ou bandas estiveram por aqui, tivemos alguns shows memoráveis de soul e jazz, mas o mundo do rock era um mercado quase inexplorado e acima de tudo desacreditado comercialmente.

Sem falar da dificuldade que era produzir um show de grande porte. Simplesmente ninguím tinha esse know-how e shows com péssima organização e qualidade de som ainda pior, era comum, quem se lembra de Van Halen (alto demais) e Kiss (baixo demais) sabe como era.

Aliás, os poucos que se aventuraram aqui na selva antes do rock in rio ficaram com um lugar especial no coração dos fãs brasileiros. Nos anos setenta os heróis foram Alice Cooper, Joe Cocker, Rick Wakeman, Peter Frampton, Santana e Genesis, que deixou o público boquiaberto pela qualidade do som e simpatia de Phil Collins que conversava com a platéia em português durante toda a apresentação. E nos anos oitenta Kiss, Queen, The Police, Van Halen e de novo Frampton e Wakeman. A falta de informação era tão grande que antes do show do Kiss tinha muita gente que jurava que eles iriam matar animais no palco, e que o ponto alto da carnificina era quando Gene Simmons pisoteava pintinhos com suas enormes botas…Justo o Kiss, imagina…

Mas a hora de lavar a alma tinha chegado, meses antes do festival as atrações iam sendo confirmadas pouco a pouco: Iron Maiden, Queen, Rod Stewart, Ozzy, Scorpions, AC/DC, Yes, Def Leppard, era muito pra cabeça de qualquer rockeiro carente, não dava pra acreditar, tudo ao mesmo tempo era demais.

O mais incrível era que o momento não podia ser melhor, nos dois anos anteriores o rock tinha explodido no país com a Blitz, Titãs, Barão Vermelho, Paralamas, enfim, toda a primeira safra do rock brazuca dos anos oitenta, ouvir rock não era tão comum desde a época da jovem guarda. Além do mais quase todas as atrações internacionais estavam em útima fase, fazendo turnos de discos bons e de sucesso, inclusive os últimos discos realmente bons em sua maioria.

Dias antes do show, já com a progração fechada e devidamente anunciada na impressa o Def Lepard é obrigado a cancelar seus shows, o baterista havia acabado de sofrer o famoso acidente que fez com que ele perdesse o braço esquerdo. Para substitui-los foi chamado o Whitesnake, todos manjavam David Coverdale, mas a banda ainda era meio desconhecida no Brasil.

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Estava tudo ótimo, a enorme estrutura construída especialmente para o festival estava pronta, tinha chegado é hora.

Ney Matogrosso foi escalado pro ponta pé inicial, sua experiência de mais de dez anos de palco, figura exótica e inúmeros hits poderiam facilmente cativar o público. Não foi bem o que aconteceu, o show acabou sendo um tanto sem graça, eficiente para um lugar menor, mas não para um público daquele tamanho. O que ficou na memória foram as constantes trocas de roupa de Ney em pleno palco, ousadíssimo pra época. Baby e Pepeu apelaram pro agito e solos pesados de guitarra, a galera engoliu sem muita vontade, mas a essa altura não ser vaiado já estava ótimo.

Whitesnake, a grande surpresa, simplesmente deixou o público pasmo, a banda realmente não era muito conhecida no Brasil e mesmo sem nenhum grande sucesso dominou o público com sua performance e músicas poderosas, seu ultimo álbum, Slide It In acabou se tornando o grande clássico da banda. O guitarrista John Sikes causou furor entre a mulherada e foi dito na época que dispensou Sônia Braga nos bastidores…O cara estava podendo.

A única banda internacional que só tocou uma vez foi o Iron Maiden que veio para o evento em plena turnê norte-americana, show aguardadíssimo pela massa de cabeludos. A banda em ótima fase, logo após lançar o disco Powerslave, como sempre foi extremamente competente deixando todo mundo mais que satisfeito.

Depois da passagem apoteótica do Queen em 1981 a expectativa era grande, tinham acabado de lançar um bom álbum, aliás, o último bom, The Works. Não poderia ter sido diferente, a quantidade de sucessos foi avassaladora, a atuação primorosa como sempre, desbunde total.Segundo dia, público mais adulto e mais tranquilo, prato cheio para Ivan Lins que acabou deixando a oportunidade passar, perdeu a voz aos vinte minutos de show, e terminou a apresentação na metade, a platáia não ficou nem um pouco feliz.

Surpreendentemente Elba Ramalho deu conta do recado, na base do frevo e da agito sem limites acabou agradando. Todo mundo pulou, dançou, suou e se divertiu. O nervosismo atrapalhou um pouco Gilberto Gil que parecia tenso e acabou não dando tudo de si.

O que ninguém esperava era que James Taylor, que andava meio sumido e não gravava a quatro anos, se tornasse uma das sensações do festival. Show impecável, carisma e simpatia foram é fórmula perfeita pra conquistar a imensa platéia que delirou com seus clássicos, cantando e dançando de rostinho colado todas as músicas.

George Benson não tinha como não agradar, muitos sucessos, músicos excepcionais, domínio de palco e público. Claro que depois do sucesso surpreendente de Taylor seu show acabou sendo um pouco ofuscado, mas agradou…Ivan Lins subiu no palco e deu uma canja pra se redimir.Terceiro dia tranquilo no Rock in Rio, música pop e new wave com bons shows de Paralamas, Lulu e Blitz.

Não se sabe por que, mas Nina Hagen e Go Go’s eram anunciadas como grandes nomes da new wave. Ninguím conhecia nenhuma de suas músicas. Do dia pra noite Nina ficou famosa no Brasil.

Rod Stewart fechou a noite em grande estilo, a essa altura de sua carreira a quantidade de sucessos era absurda e público ouviu tudo o que queria de um animado Rod, “confesso que entrei no palco bastante alto no primeiro show…” confessou depois.

Como era de se esperar, segunda feira tranquila e de pouco público, o menor do festival. Moraes Moreira e Alceu Valença agradaram bastante e George Benson e James Taylor repetiram suas performances eficientes, mas com a ordem dos shows trocada, Taylor fechou a noite.

Terça feira era um dia dos mais aguardados, Scorpions e AC/DC, expectativa total. Mais uma vez grande parte do público formado por rockeiros mais radicais que não estavam nem um pouco a fim de aturar Kid Abelha e Eduardo Dusek, mais uma falha da produção.A apresentação do Scorpions prometia, tinham acabado de lançar um disco de grande sucesso, “Love At First Sting”, e já não eram uma banda apenas conhecida por rockeiros mais fanáticos. Superaram todas as expectativas, show impecável, carisma, energia e empatia total com a platéia. Klaus Meine cantou enrolado na bandeira do Brasil, todos adoraram, unanimidade de crítica e público, saíram do palco consagrados.

“Still Loving You” virou uma das músicas mais tocadas no país naquele ano e o clipe da música “Big City Nights” acabou sendo gravado no Rio de Janeiro, deixando os fãs da banda orgulhosos.

Só mesmo o AC/DC pra segurar a bronca depois de um show tão marcante quanto o do Scorpions, como sempre tiraram de letra, arrasador, Angus Young enlouquecido, Brian Johnson no auge da forma, muitas músicas de sucesso, perfeito.

Pra coroar a noite Tancredo Neves havia acabado de ganhar de Paulo Maluf nas eleições indiretas, começando o processo de abertura política tão esperado. O curioso é que todos os jovens que estavam ali assistindo aos shows eram obviamente favoráveis a renovação, mas Tancredo, muito mal assessorado, dias antes do Rock in Rio soltou a pérola: “A minha juventude, a juventude por quem eu tenho apreço, respeito e admiração, não é a do Rock in Rio, é a do estudo, do trabalho, do sofrimento, da luta…”. Perdeu uma boa oportunidade de ficar calado.

Quarta feira, mais um dia de misturas inusitadas, Moraes Moreira, Rod Stewart e Ozzy? Então ta bom…Coube aos Paralamas a tarefa difícil, a banda ainda não tinha muitas músicas conhecidas e ainda teve que contar com a má vontade do fãs de Ozzy, mas mostraram segurança e competência saindo consagrados. Moraes e Rita Lee apenas conseguiram segurar a bronca, mas não chegaram a agradar.

Bom, chegava na hora tão aguardada, Ozzy Osbourne, ele não estava em sua melhor fase, tinha acabado de lançar o disco “Bark at the Moon” que era bom, mas estava gordo e sua voz mais fraca do que nunca. A competência da banda e a boa vontade da platéia conseguiu tornar o show memorável, metaleiros ficaram felizes, a carência de shows era tão grande que ver Ozzy ao vivo já era um sonho realizado.

Rod Stewart tocou pra quem queria realmente ver seu show, os fãs de Ozzy a essa altura já estavam indo embora do local. Melhor pra ele.

Quinta feira de muita chuva e muita lama. Mais shows de Alceu, Elba e Al Jarreau e o aguardadíssimo Yes. Pra muita gente a banda tinha se vendido, estava fazendo um som comercial sem nenhum valor, mas a verdade é que o Yes vivia uma fase de renovação, o disco “90125” era útimo e independente da vontade dos fãs era um estrondoso sucesso de vendas.

Debaixo de um dilúvio o grupo deixou todo mundo feliz com sua atuação pra lá de eficiente, lambuzados de lama alguns mais bicho-grilo gritavam: “Estou em Woodstock!!!…” momento histórico da falta de noção.

A noite de sexta feira era considerada a noite new wave, apesar do Queen ser a atração principal.O engraçado é imaginar o pessoal do Queen ou do Yes achando necessário sabotar o Kid Abelha ou a Elba Ramalho.

Depois do festival os técnicos brasileiros assumiram que nunca houve má fé dos gringos, na verdade os equipamentos sofisticados e supermodernos eram desconhecidos por aqui e simplesmente ninguém sabia operá-los direito, resultando num péssimo som pra maioria das bandas, especialmente as que tinham muitos instrumentos em sua formação, o que tornava a equalização ainda mais difícil.

A noite de sábado era a “noite do metal”, adivinhem de quem era o show de abertura? Erasmo Carlos! Claro que ele ficou “doente” e foi transferido para o dia seguinte. O abacaxi ficou na mão de Baby e Pepeu que até seguraram a onda com muuuuuitos solos de guitarra de Pepeu Gomes.

O que veio a seguir foi o que o público já esperava: muito peso, muita bateção de cabeça e uma quantidade enorme de headbangers de outros estados e até de países vizinhos. As bandas mantiveram a qualidade de suas apresentações anteriores e todo saiu feliz.

Ultimo dia da maratona, dessa vez Erasmo tocou mais sossegado, sem nenhum acidente. Barão Vermelho fez um bom show, Cazuza foi nota dez e assim como os Paralamas também saíram consagrados do festival. A Blitz fez o ultimo show de sua carreira, B-52’s repetiu a apresentação divertida de dias antes e o Yes fechou tudo no clima apoteótico que o evento merecia.

A repercussão de todo o festival foi tão grande que o Rock in Rio ganhou fama no mundo todo, quase todas as bandas citam até hoje o impacto que foi vir para o Brasil sem saber o que iriam encontrar e acabar se deparando com platéias de mais de duzentas mil pessoas. Realmente um marco na história dos festivais de rock, mais de um milhão de pessoas compareceram ao evento que consumiu em sua produção cerca de doze milhões de dólares.

A quantidade de shows internacionais no Brasil aumentou assustadoramente, os técnicos e promotores adquiriram o know-how necessário para não fazer feio e até a vendagem de discos aumentou naquele ano.

Veja matéria completa no site Rock in Rio 2019 http://rockinrio.com/rio/pt-BR