Por L.J.Sardá

Poxa, parece verdade, o jornalismo caiu na armadilha infantil: leia ou ouça o continho e navegue na fantasia. A narrativa singularizou-se, naquela pequena lagoinha, onde os patinhos se perderam da mamãe pata, mas depois regressaram. O final feliz virou epílogo estratégico no jornalismo. Ou nunca viram bombeiros, em cenas estrategicamente pautadas por veículos de comunicação, salvar um gatinho ferido ou amedrontado no topo de uma árvore?

Há pouco ouvi numa emissora de rádio um continho com final bem feliz, de fazer chorar os ouvintes. Um casal, em fase se separação, finalmente chegou a um acordo perante o juiz: os seus dois cachorrinhos terão de se separar: cada cônjuge ficará com um cãozinho. Só faltou mais emoção, como, por exemplo, o juiz determinando um acompanhamento psicológico para os animalzinhos de estimação. E, com certeza, os cachorrinhos separados terão direito a visitas periódicas do cônjuge que se foi.

O jornalismo infantilizou-se? Poxa, pergunta difícil, mas foge a uma convicção, porque o jornalista formado adquiriu uma bagagem capaz de entender que aquele flagrante de um menino derrapando com sua bicicleta na lama e que “graças a Deus” (palavra do repórter) nada aconteceu, pode até merecer espaço em redes sociais, mas não serve de fato jornalístico. A imagem está pautando mais o jornalismo que a própria pauta inovadora, capaz de atrair leitor, ouvintes e telespectadores pela importância e ineditismo. Todos os dias, praticamente, engarrafamentos na Grande Florianópolis têm merecido espaço nas mídias tradicionais, mas como fato recorrente, embora, mesmo se sabendo que sinaleiras da Beira-Mar Norte, por exemplo, estão desaparelhadas há seis anos. E por quê?

Na verdade, jornalismo caiu no conto de fada das redes sociais, onde o fato singular, familiar, intimista tem o halo da fantasia, de um impressionismo exacerbado do terceiro milênio, longe da Belle Époque em que a arte plástica reproduzia a luz e o movimento em cada pincelada. Estagnamo-nos no espaço do casual, do instantâneo, de tantos milhares de fatos e episódios, ao ponto de o comum reacender-se no espaço da imagem valorizada por movimentos. E somos, nós jornalistas, incapazes de fugir à obviedade, quem sabe com receio de fugir ao comum e perder espaço à sobrevivência da notícia. Mas o que é notícia?

A revolução tecnológica acendeu todas as luzes de alerta às profissões. E nenhuma delas consegue fugir à necessidade de sair da vala comum, crescer com a velocidade do conhecimento e as habilidades ensejadas pela tecnologia. No jornalismo não é diferente. Mas será que a revolução mudou o papel, a missão do jornalismo? Não, claro que não. Mudou, sim, a forma de se pensar e de fazer jornalismo. Atrevo-me em afirmar que informação sozinha não constitui matéria-prima do jornalismo. O conhecimento hoje é muito mais importante, porque substancializa o fato que a sociedade conhece pelas suas redes. Mas, teimosamente, o jornalismo abraça-se à informação, perde-se na obviedade, torna-se chato com o seu conto de carochinha e culpa à tecnologia por estar se definhando.

Este dia 7, em que o jornalismo ainda é bem lembrado, exige reflexão principalmente para nas escolas ainda entusiasmadas com rádio, TV e jornal. Não se trata de achar que a notícias morrem em segundos e que a informação precisa estar recheada de fatos novos para justificar a sua inserção nas mídias tradicionais. Ouso em dizer que a internet, embora seja imprescindível ao relacionamento e a informações, não é a principal fonte de pauta do jornalismo que não consegue se desacelerar, achando que o seu concorrente é o usuário das redes sociais.

O jornalismo precisa, antes de tudo, contextualizar-se. Sim, é necessário conhecer seus limites geográficos e parar se achar que o seu leitor, ouvinte ou telespectador está nos cinco continentes. Sim, claro, sempre haverá asiáticos, africanos, europeus, árabes, norte-americanos etc. etc. atraídos por imagens ou textos incomuns. Contudo, entendo que jornalismo é geográfico. É cidade, estado e nação. E se ele perder essa função, de trabalhar a simbiose da informação com o conhecimento, sem se preocupar com o ser, a cidade, a ciência, os problemas urbanos e rurais, achando-se no direito ao vedetismo, à vaidade, e a devaneios, com certeza terá de vascular outra alternativa em algum dos cinco continentes. E quem sabe acabe descobrindo que o jornalismo na Espanha, Inglaterra, França já se reencontrou com o seu verdadeiro compromisso, sobretudo social.

Fonte: App Unisul