O abstracionismo é uma das mais discutidas escolas da pintura moderna.

Uma pintura abstrata pode ser definida como aquela cujas formas e cores não possuem relação direta com as formas e cores das imagens da realidade visual, em outras palavras, nada representam, nada descrevem ou narram figurativamente. Nada representar da realidade visual é a condição fundamental da pintura abstrata, porque certos pintores abstratos partem, algumas vezes, das formas visuais da realidade para chegar a formas e cores, visualmente inexistentes e, portanto, abstratas.

Apesar das restrições e estranhezas que provocou, o abstracionismo não é novidade absoluta na história da pintura. No passado, mais de uma vez, ocorreram formas e cores abstratas, desligadas completamente das realidades visuais. As primeiras manifestações, neste sentido, apareceram ainda na Pré-História, segundo estudiosos, entre os artistas da idade da pedra polida. Animados de intenções decorativas, negavam ou se abstraem do verismo visual, nas representação as imagens do mundo exterior.

Durante a Idade Média, como na alta antigüidade oriental, a representação da natureza foi artisticamente ignorada. Embora figurativa, a pintura medieval – cristã primitiva, bizantina românica e gótica primitiva – foi em essência abstrata, porque não se inspirava nas realidades da natureza, mas nas abstrações da crença religiosa. Numerosas seitas muçulmanas, por exemplo, recusam a representação figurativa da realidade, substituindo-a por desenhos ornamentais caprichosos, os chamados arabescos, ainda que em obediência às prescrições religiosas impostas por Maomé. Seria longo tratar mais detidamente das manifestações de abstracionismo no passado, nas artes eruditas e primitivas.

Os historiadores e críticos da arte moderna concordam em atribuir as primeiras pesquisas e realizações abstratas na pintura moderna ao russo Vassily Kandinsky (1866-1944), anteriormente figurativo de tendência fauvista. Para que se possa conversar melhor sobre abstracionismo nas artes plásticas, em geral, e na pintura, em particular, será preciso esclarecer bem a significação de dois termos bastante usados pelos escritores e críticos de marte moderna – conteúdo e forma.

Conteúdo e Forma

No vocábulo de pintura, o conteúdo é aquilo que o pintor representa – uma paisagem, uma figura humana ou animal, uma cena ou episódio qualquer, religioso o profano, passado ou atual, flores, frutas, objetos, etc., quando a composição passa a se chamar natureza-morta. Forma é a maneira como o pintor utiliza os seus meios expressivos, isto é, as linhas e as cores, com maior ou menor talento, mesmo sem nenhum, para representar o conteúdo. Quando se diz forma, no entanto, não se quer dizer a habilidade manual e a rapidez na execução, como num retrato que de tão bem feito e parecido só falta falar. Essa habilidade manual de fazer bem e depressa se chama pejorativamente virtuosismo ou maneirismo. No nosso caso, forma significa a carga expressiva, complexa e verdadeiramente subconsciente ou subliminar, que o artista confere às suas linhas e cores. Nesse sentido, a forma de Van Gogh, por exemplo, profundamente original, possui fascinante poder expressivo, inclusive nas próprias pinceladas impulsivas, que se sucedem em mágicos movimentos ondulatórios, com os quais nos fala eloqüentemente de seus ardentes e doloridos sentimentos.