CARTA A UM JOVEM PESQUISADOR
Anna Carolina K. P. Regner
Professora do Depto. de Filosofia do IFCH da UFRGS


Meu caro/minha cara:

Iniciando-te na pesquisa, talvez já com uma bolsa de iniciação ou na expectativa de obtê-la, convido-te a uma breve reflexão. Em seu transcorrer, serão feitas sugestões de leituras sobre esta arte peculiar com que passas a te ocupar. Não estranhes a expressão "arte peculiar", pois logo verás o quanto de criatividade, sendo de oportunidade e paixão, além de preceitos metodológicos e hipóteses, o sucesso nestas lides requer, embora de início a observância destes dois últimos ingredientes possa ser acentuada como seu requisito essencial. Esta exigência faz parte, como veremos, da dinâmica do processo que passas a integrar. A que poderá servir uma tal reflexão? Se fores pesquisador na área de Filosofia, reflexões como esta, sobre a natureza e condições de possibilidade da pesquisa científica, seu alcance e limitações, temáticas de análises filosóficas, podem ser parte da "rotina" de trabalho. Mas, seja qual for tua área de atuação, poderás nela encontrar alguma utilidade. Pois a atividade na qual passas a emprenhar-se tem sido objeto destas análises, que refletem sobre sua natureza e condições de possibilidade, de modo que poderás, nesta reflexão, encontrar muito de tua vivência como pesquisador, melhor compreendê-la e, quem sabe, desempenhá-la, conformando-te com certas limitações e ousando, a seu tempo, transgredi-las, num jogo cuja medida não está dada num estrito preceituário prévio. Poderás ver que, nesta tarefa, mesmo naqueles aspectos muitas vezes entediantes, repetitivos, de observância de regras que te são "dadas" (como quando deves cumprir exaustiva e quase que mecanicamente minuciosos procedimentos de laboratório), há igualmente espaço significativo, que poderá ser conquistado como maior ou menor, para "tua" atuação. Disse um notável filósofo, Kant, que, embora o entendimento possa instruir-se e formar-se por regras, o juízo é um dom particular que se exerce, mas que não se pode aprender - aquilo cuja carência nenhuma escola pode suprir1 . Ampliando-se a visão do espaço para o necessário julgar, que a própria aplicação das regras demanda como espaço em que se insere a contribuição individual, aí abre-se igualmente a perspectiva para a conquista de teu espaço criativo (para, quem sabe, perseguires, na formulação de tuas hipóteses, conjecturas, aquela suspeita de que as coisas poderiam estar ocorrendo de um outro modo, diverso do esperado segundo o delineamento inicial do projeto com o qual tu e teu grupo vêm trabalhando). Refletindo sobre este duplo aspecto a ser vivenciado no processo de pesquisa, constatarás, na atividade que passas a desempenhar, uma tensão entre dois fatores que se remetem mutuamente. De um lado, está o papel regular da comunidade científica enquanto tal, com seus valores, procedimentos, concepções básicas acerca de qual seja a realidade a investigar e de como deva ser a ciência que a investiga, padrões de fenômenos, problemas e soluções - ingredientes que, em sua rede de relações, ditam diretrizes que regerão a pesquisa a ser desenvolvida numa determinada área. De outro lado, está o modo, às vezes conflitante com os padrões do grupo, como são aplicados estes valores e procedimentos e/ou as alterações naquelas concepções básicas que caracterizam o elenco de crenças desposadas pelo grupo acerca da realidade a investigar e das condições de sua investigação. Este segundo fator coloca em cena o papel que pode ser exercido, como agente de mudança, pelo pesquisador individual e por um grupo inicialmente restrito de pesquisadores, por força de influências tais como tipo de educação científica prévia recebida, origem em diferente área de pesquisa (aí, por exemplo, a importância de receber pesquisadores com formação em diferentes centros), preferências pessoais e outras condições circunstanciais. A efetivação de uma mudança dependerá, contudo, da capacidade de obtenção de uma adesão crescente dos membros da comunidade científica relevante ao novo modo de ver e de conduzir a pesquisa. A prevalência dos padrões do grupo sobre as escolhas individuais garante que a comunidade não ceda ante qualquer novidade, desviando o rumo da pesquisa sem aprofundá-la. Há que medir os passos e perseverar antes de abandonar de vez um projeto - o que, de qualquer modo, não acontecerá sem a presença de novas diretrizes para a pesquisa. É parte da pedagogia científica, que deves estar vivenciando em teu trabalho, o entrar para a pesquisa entrando para o grupo, para um projeto, ou, mesmo que trabalhando apenas com teu orientador, para uma dada "tradição", ainda que recente, ou para o convívio com que vem de uma experiência de "tradição" de pesquisa, embora em outras linhas. Um aprofundamento será condição essencial para uma avaliação dos alcances e limites das diretrizes que regem uma dada pesquisa. De outra parte, o espaço para a ocorrência de aplicações e concepções básicas diferenciadas garante a possibilidade de mudança na ciência, em suas teorias e nos rumos da pesquisa, quando o novo for capaz de mobilizar a adesão da comunidade relevante. Mas, antes de propor, com possibilidade de êxito, mudanças nas regras do jogo, há que saber jogá-lo - aprendê-lo e revelar perícia, ou contar com o respaldo de quem já tenha firmada a reputação, entre os seus pares, de um hábil jogador! Thomas Kuhn, em A Estrutura das Revoluções Científicas (1977), aborda esta temática, enfatizando o papel do comprometimento da comunidade científica com uma rede de ingredientes - crenças, valores, critérios, procedimentos, padrões de problemas e soluções, instrumentos - que perfazem o que Kuhn chama de paradigma, referencial para sua análise do que seja ciência e cuja vigência caracteriza os períodos que chama de ciência normal. Estes seriam aqueles períodos em que a pesquisa aprofunda-se, norteada por sólidas e tacitamente aceitas diretrizes, ditando os padrões de problemas e soluções a serem observados (Kuhn também refere-se a paradigmas como exemplares compartilhados). A mudança de paradigma, mudando padrões de problemas e soluções, critérios, concepções orientadoras e mesmo procedimentos e instrumentos, é o que Kuhn chama de revolução científica. Trata-se de uma mudança nos fundamentos que regem a pesquisa e não apenas de alternativas de trabalho ou de versões possíveis no interior das delimitações impostas por um mesmo paradigma. Operada uma revolução, instala-se um novo período de ciência normal, regido por um novo paradigma, com suas diretrizes próprias para a pesquisa a ser realizada. Já pensaste sobre a natureza do projeto em que te encontras engajado? Qual seu paradigma orientador - ou não cabe aí falar em paradigma? Há algo como um paradigma na tua área de atuação? Estas questões, segundo Kuhn, não seriam lançadas caso o trabalho estivesse sendo efetivamente orientado por um paradigma - quando há esta orientação, há um acordo tácito sobre qual a pesquisa a realizar, sobre o que é relevante fazer e como fazê-lo. Tais perguntas, que poderiam levar a um questionamento dos fundamentos da pesquisa a ser feita, revelariam a ausência de diretrizes atuando de modo eficaz no seu balisamento. Em sua eficácia, tais diretrizes estabelecem o que deve ser esperado, não tendo como meta a novidade propriamente dita. O novo seria o anômalo, o inesperado. E, embora só sabendo o que cabe esperar possamos ter o pano-de-fundo para a percepção de algo como uma anomalia, não é para a descoberta desta que se dirigem os esforços da ciência normal. Antes, visa à articulação do paradigma. Mas, não esqueçamos, a proposta de Kuhn é uma das análises contemporâneas da ciência, ainda que das mais prestigiadas. A tua experiência pode tanto ser elucidada por uma análise como esta, quanto ser elucidativa para um exame dos alcances e limites deste instrumento analítico. Um ponto maior de interesse na análise proporcionada por Kuhn refere-se às condições para a defesa e aceitação de um novo paradigma, ou seja, no que aqui nos ocupa, daquele conjunto de diretrizes norteadoras da pesquisa a realizar. Kuhn ressalta não haver um conjunto de critérios, valores, cencepções básicas supraparadigmático que se aplique equanimemente a todas as situações de pesquisa, embora a comunidade envolvida seja particularmente sensível ao caráter "promissor" ou não de um paradigma, quando este mostra-se ou não capaz de dar conta dos problemas que coloca e de colocar problemas que sejam considerados relevantes. Os tradicionais requisitos de "objetividade" e "racionalidade", "testabilidade empírica" são, por si só, pouco esclarecedores para uma decisão entre paradigmas, ou melhor, entre candidatos a paradigma. O fato de que toda a pesquisa que se diga científica pretende ser "objetiva", "racional" e passível de ser submetida a "teste empírico" não determina que estas exigências sejam, à luz de diferentes conjuntos de diretrizes, entendidas e/ou aplicadas da mesma maneira. Diferenças na sua significação e aplicação tornam-se essenciais porque interferem no modo como definem a prática em que efetiva a pesquisa. O teu grupo, por exemplo, reconhece como objetivos ou confiáveis resultados obtidos por instrumentos e interpretações na sua leitura não sancionados pelo conjunto de diretrizes que rege a pesquisa do grupo? A questão da escolha e adesão a um dado paradigma ou diretriz de pesquisa é complexa, não podendo ser decidida apenas pelo sucesso na testabilidade empírica de suas hipóteses ou teorias centrais, através de suas conseqüências ou aplicações particulares, nem pela mera coerência interna dos enunciados a que dá lugar - ambos critérios dependem de desenvolvimento da pesquisa a ser norteada pelo paradigma em questão. Todavia, são estes apontados, em análise mais "tradicionais" da natureza do conhecimento científico, como seus fatores distintivos, sobretudo no que concerne à testabilidade empírica, colocando esta distintividade em algo como o método científico. Em seu bojo ainda mais tradicional, encontram-se as análises de cunho positivista que enfatizam esta testabilidade em termos de verificabilidade e, posteriormente, de confirmabilidade empírica das hipóteses científicas. Estas análises têm no chamado positivismo ou empirismo lógico uma das mais influentes linhas de filosofia da ciência comtemporânea². Numa perspectiva mais crítica, colocando-se a análise de Karl Popper que vê, no falseamento ou refutabilidade em princípio das hipóteses por teste empírico, o critério basilar e distintivo da ciência em seu método característico. As análises popperianas podem ser encontradas nas diversas e entre nós bem difundidas obras de Popper, entre as quais estão A Lógica da Pesquisa Científica (1975) e Conhecimento Objetivo (1975). Popper chama a atenção para a impossibilidade de verificação de enunciados estritamente universais (enunciados que dizem respeito, sem restrições espaciais ou temporais, a "todos" os objetos de um dado universo), valendo-se em boa parte de argumentos já levantados por um filósofo inglês do século XVIII, David Hume³ - além da restrição imposta pelo "arrolamento imperfeito" de todos os casos cobertos pelo enunciado, não temos razão para alegar que o futuro seja igual ao passado, ou que situações das quais não temos experiência. Desde um ponto de vista lógico, se tomarmos cada caso particular como conseqüência do enunciado universal que o cobre, não estamos justificados a passar da verdade do conseqüente (o enunciado particular) à verdade do antecedente (o enunciado universal), embora possamos, da falsidade do conseqüente, falsear o antecedente. Popper preserva, contudo, como decisivo, o critério da estabilidade empírica, entendida esta em termos de hipóteses passíveis de serem, em princípio, refutadas pela experiência (bastaria um "contra-exemplo" para refutar um enunciado tipo-"todos"). Enriquece igualmente a idéia de testabilidade empírica (e a do método distintivo da ciência), requerendo sua aplicabilidade a teorias concorrentes para a solução de um problema, incluindo centralmente a idéia de testes críticos ou experimentos cruciais a que tais teorias seriam igualmente submetidas, tomando a testabilidade empírica assim entendida como critério para a nossa "preferência" por uma dada teoria, como sendo a "melhor" num dado tempo. Talvez tua experiência também te reporte a estas últimas exigências como as que encerram o que deve ser satisfeito pelo trabalho a desempenhares. Esta ênfase, em boa parte, explica-se por condições da pesquisa que não chegam a privilegiar um enfoque analítico popperiano em detrimento de um kuhniano. Usualmente, os projetos nos quais iniciantes se engajam - mesmo nos da chamada "pesquisa de ponta" e, talvez, sobretudo nestes - seguem, mal ou bem, o curso de exigências da comunidade científica já instalada, com diretrizes definidas e inquestionadas (ou questionadas dentro de limites que não abalam os fundamentos orientadores). Sem estas condições, como se num período de ciência normal, são, efetivamente, aqueles os critérios para decisão (aceitabilidade/escolha) entre cursos alternativos de ação/pesquisa permitidos pelo paradigma ou por algo similar. Apenas quando esta orientação básica é questionada, foge o consenso quanto ao próprio significado, alcance e limites do teste empírico. Além disto, engajado numa atividade regida por algo como um paradigma, o pesquisador não percebe a si e a seu grupo como alguém que vê a realidade através dos óculos de um paradigma. Antes, vê-se como alguém que está de posse da trilha que leva à realidade (e, não, à realidade segundo seu paradigma!). O teste empírico, então, é "o" meio pelo qual "a" explicação (e, não, a permitida pelo paradigma) é científica, tendo assim medido o êxito de seu acesso ao mundo. Ainda que não se adote uma análise kuhniana, pode-se objetar, quanto à testabilidade empírica e coerência interna como os critérios determinantes para a escolha entre diretrizes promissoras de pesquisa, que ambos são fruto de um tempo de trabalho, de desenvolvimento da pesquisa com a qual a comunidade científica se ocupará e por cujas diretrizes já terá, então, feito sua opção. Não se trataria, pois, de determinar a escolha via teste empírico ou irretocável coerência interna. Outros fatores entrariam também em jogo no contexto de avaliação, dentre os quais Kuhn incluiria a habilidade persuasiva dos defensores de um candidato a paradigma, e nós talvez devêssemos incluir algo como obtenção de verbas, o que nos remeteria à consideração de prioridades sociais ou interesses das agências financiadoras. No caso de teu projeto de pesquisa, que fatores têm determinado sua orientação? Uma outra maneira de examinar a força da testabilidade empírica na definição dos rumos da pesquisa, bem como o papel do apego a uma dada teoria orientadora e o das teorias concorrentes no desenvolvimento da pesquisa, pode ser encontrada na leitura de Paul Feyerabend, em Contra o Método (1977), em Imre Lakatos, em O Falseamento e a Metodologia dos Programas de Pesquisa Científica (I. Lakatos & A. Musgrave, 1979). Estes autores, por razões que nem sempre são as mesmas, advertem na prática normal da ciência tanto a tenacidade ressaltada pela análise de Kuhn, de apego ao paradigma, sem espaço para teorias paradigmáticas concorrentes, como a proliferação de hipóteses, mesmo conflitantes - ambos princípios, de tenacidade e proliferação, igualmente necessários e mutuamente remissivos no processo4. Feyerabend ressalta que, para podermos explorar a evidência empírica, precisamos de esquemas conceituais, lingüísticos, metodológicos e mesmo perceptivos alternativos, dado que toda a evidência empírica é, segundo este autor, fisiológica e culturalmente "contaminada" - não há como diz, "fatos nus", fatos que não sejam vistos de uma determinada maneira. Como é reconhecido por todas as análises contemporaneamente feitas, a evidência fatual é teoricamente determinada. Pensa um pouco sobre tua vivência como pesquisador - já não tiveste que refazer experimentos e conferir resultados na suspeita de diferenças "metodológicas"? E não encerram estas diferenças modos diferentes de tratar a evidência? Podes interpretar os resultados obtidos, dimensionar seu alcance e limites, sem determinar a rede de significações em que se apóia tua leitura, teu uso de termos, mesmo dos "descritivos", daqueles que pretendem apenas "descrever" o que está "dado"? Assim, no próprio ensejo de que explorar a evidência empírica como critério íntegro para confirmação ou refutação de uma teoria com esquemas conceituais, metodológicos, perceptivos únicos (romper com algo como o método) e trabalhar com esquemas alternativos - inclusive com hipóteses que inicialmente conflitem com fatos e teorias bem estabelecidas - para, via comparação e contraste, trazer à luz aquela "contaminação" da evidência. Não se trata de um mero elogio à "anarquia", mas de uma estratégia de investigação a ser trabalhada. Não se trata, como diz Feyerabend, de recusar todo e qualquer método, mas sim, o absolutismo de algo como o método e de defender o pluralismo metodológico. Uma tal estratégia, para sua própria fecundidade, não exime o pesquisador de uma habilidade em mover-se com boa desenvoltura por entre as diferentes exigências metodológias, inclusive pelas apontadas naquelas análises mais "tradicionais" do que seja a ciência. (De resto, Feyerabend conheceu bem e, de certo modo, praticou aqueles requisitos antes de criticá-los.) Portanto, faz parte do próprio aprendizado crítico lavar os vidrinhos, fazer as revisões bibliográficas indicadas pelo orientador, repetir e repetir experimentos, observar regras - então, refletir sobre este trabalho (quem sabe, com alguma leitura de Feyerabend no bolso) e, sabendo por que "ousar", levar com paixão "novas" propostas ao orientador, ao grupo. (Depois de um certo tempo, já saberás até mesmo a que tipo de argumentação teu orientador e/ou grupo é mais sensível). Lakatos acentua outro aspecto igualmente pertinente à questão do teste empírico: sempre se pode, legitimamente, de um ponto de vista lógico e/ou, "apelar" em caso de resultado refutador - por exemplo, colocar em discussão o pano-de-fundo, pressupostos implícitos de variada gama, incluindo mesmo teorias acerca da percepção dos fatos, definições, alegar que não podemos excluir a possibilidade da presença de fatores interferentes e desconhecidos, responsável pela alteração dos resultados esperados, e assim por diante. Esta alegação deixa sempre em aberto a possibilidade de recuperação de um projeto aparentemente falseado. Contra Popper, portanto, embora diga-se estar na tradição popperiana, Lakatos mostra que não há refutação conclusiva de teorias. Aliás, Lakatos coloca como objeto da análise do que seja ciência e pesquisa científica, programas de pesquisa ou série de teorias, antes que teorias isoladas. Destes programas é que cabe julgar a cientificidade, comportando avaliações em termos de programas progressivos, estacionários e em degeneração. Segundo a análise de Lakatos, é, de um lado, perfeitamente "racional", ou seja, "há razões para", um cientista ou pesquisador apegar-se a qualquer programa, mesmo a um em degeneração. Este programa pode, em princípio, pelas razões já aludidas, recuperar-se. De outro lado, não será "racional" apegar-se a um programa que, mesmo sendo-lhe dado tempo, não se recupera. O problema, contudo, é que Lakatos não diz, como bem observam Kuhn e Feyerabend, quais os critérios para se considerar ter dado tempo suficiente para a recuperação. Tais critérios, a existirem, deveriam ser outros, além de razões lógicas e/ou empíricas, únicas a que Lakatos pretende ater-se, criticando a Kuhn e pondo-se ao lado Popper, num repúdio ao que chama de sociologismo. Apesar de tal repúdio e da reconhecida importância de razões lógicas e empíricas, cabe perguntar, até como conseqüência da leitura de Lakatos, pela interferência de razões de outra ordem no curso da pesquisa. Talvez esta pergunta nos leve a pensar acerca do papel das prioridades na aplicação de recursos, dependendo, pelo menos em boa parte, de "disponibilidade de caixa", do tempo a ser concedido para a recuperação de um programa, ou do fôlego de seus orientadores para mantê-lo em pé. Sem dúvida, ao se pensar em critérios como estes, não se facilita a decisão - corre-se, por exemplo, o risco de "podar" resultados a longo ou médio prazo frutíferos e socialmente relevantes, em nome de necessidades mais imediatas. De qualquer modo, tais considerações nos mostram que fatores outros , além de razões lógicas e empíricas, "racionalmente" interferem nas diretrizes (e mesmo na avaliação dos méritos) de uma pesquisa. A propósito, como vai o teu programa? Que tipo de dificuldade enfrenta? O que cabe fazer a respeito? Talvez não possas (ainda) interferir no curso do projeto em que trabalhas, detectar ou não dificuldades. É parte do jogo que, antes de poderes fazê-lo e de teres conquistado o direito a "hipotetizar", sejas reconhecido como elemento integrante e integrado ao grupo e, para tanto, sejas iniciado no processo - e os "ritos de iniciação", salvo raras exceções, começam com tarefas mais modestas! Boa parte de teu aprendizado - se não for toda - dá-se "fazendo". Às vezes já tiveste aulas de metodologia, muitas vezes de duvidosa serventia para tua presente e efetiva ocupação com a pesquisa. Em qualquer caso, não substituem aquele aprendizado que se dá por internalização, via "inspeção direta", de regras que são antes "pontos-de-vista" na resolução de problemas como se fossem estes "quebra-cabeças", "compartilhando problemas e soluções exemplares", usando-se aqui expressões de análise kuhniana. Mas também quero crer que, divergindo aqui talvez de Kuhn, um certo distanciamento reflexivo eventual, como este a que te estou convidando, também seja útil a teu aprendizado. Despeço-me insistindo neste ponto. Embora a pedagogia a que Kuhn se reporta seja bastante eficaz (inevitável?) para o aprendizado de certas práticas da ciência normal, pode, e, que pesem seus méritos "produtivos", tornar-se "bitolante". Em boa parte, seus efeitos, bem como sua desejabilidade ou não, dependerão de tuas pretensões - que tipo de pesquisador queres e podes ser? Excelentes pesquisadores formam muitas vezes o batalhão da limpeza e dos ajustes, trabalho sempre necessário. Quais as possibilidades, necessidades e anseios teus, do teu grupo e da realidade social mais ampla que "financia" a pesquisa? Se buscares alguma luz em análises como a de Feyerabend ou a de Lakatos, que enfatizam a tensão entre a tenacidade e a proliferação, aquele aprendizado por "inspeção direta" pode abrir-se a um trabalho que dá lugar igualmente ao esforço criativo. Na visão de Lakatos, por exemplo, um programa de pesquisa vai desenvolvendo-se pela sucessiva construção e modificação de modelos: imaginando, testando, alterando, alterando antes de testar, alterando ora as partes propriamente explicativas, ora as descritivas, inclusive as que possam referir-se à própria percepção dos fatos ou à construção do experimento enquanto tal. A única coisa que permanece protegida é o que Lakatos chama o núcleo (metafísico) do programa, sua idéia-mestra, em torno da qual, enquanto o programa perdurar, constrói-se um cinto de proteção, dirigindo-se o ataque às hipóteses que perfazem este cinto e modelam aquela idéia. Neste processo, não há, certamente, receitas prévias sobre como obter as hipóteses relevantes, os modelos mais interessantes, os núcleos mais férteis. Pode-se, contudo, supor que, muitas vezes, a atenção restrita a um único foco turve a visão e que seja instrutivo, além de repousante e matéria de agradável cidadania, percorrer esferas interdisciplinares. Mas este ponto seria, por si mesmo, motivo para toda uma outra conversa. Procedimentos metodológicos estão comprometidos com modos de ver a natureza das coisas, nosso acesso a elas e os recursos que o viabilizam. Certamente, existem manuais de metodologia, com elencos de princípios e regras, e pode ser útil lê-los, buscando-se seus comprometimentos com a concepção e modo de analisar a ciência que estão em suas raízes. Há, sem dúvida, regras - quais sejam, porém, seu alcance e limites, depende de uma experiência e reflexão que vai além dos limites de "aplicação" das regras "lidas". E, se o aprendizado de que nos fala Kuhn pode, numa avaliação não-kuhniana, ser "bitolante", pode, também, sob esta mesma avaliação, levar a um criativo alargamento de horizontes. Pois a análise de Kuhn, enquanto posta na perspectiva de elucidar a natureza, sucesso e limites da atividade científica vista em termos de processo de produção da pesquisa científica, remete-nos, como este autor bem coloca, a uma reflexão sobre sua contextualidade e historicidade. Focalizada sob esta perspectiva, a análise da atividade de pesquisa científica permite abrir um debate com o próprio enfoque kuhniano que ressaltou tal perspectiva. Por este caminho, da atenção à contextualidade e historicidade da ciência, podemos muito aprender sobre o "obedecer" e o "ousar" (como uma versão da tensão entre tenacidade e proliferação) - ambos revelam-se necessários em seu tempo e lugar. Quais sejam estes, tua vivência como pesquisador vai te mostrar. Parece que tanto a prudência como as pressões institucionais recomendam começar pelo primeiro, mas não pré-dizem quando passar ao segundo. São desafios do processo e talvez seu ponto mais excitante - uma certa juventude a ser cultivada para que seu amadurecimento crítico o revitalize, ao invés de envelhecê-lo.

Felicidades,
Porto Alegre, 04 de janeiro de 1993.

Notas

1) "Ora, se quisesse mostrar universalmente como se deveria subsumir sob essas regras, isto é, distinguir se algo está ou não sob as mesmas, isto não poderia ocorrer de outra maneira senão novamente por uma regra. Mas, justamente por ser uma regra, esta requer, por sua vez, uma instrução da capacidade de julgar, e assim fica claro que o entendimento é capaz de ser instruído e abastecido por regras, mas que a faculdade de julgar é um talento particular que não pode ser ensinado, mas somente exercitado. A capacidade de julgar é, portanto, também o específico do chamado senso comum, cuja falta nenhuma escola pode remediar. Com efeito, se bem que a escola possa oferecer abundantemente e como que inocular num entendimento limitado regras tomadas emprestadas de outros, ainda assim a capacidade de servir-se corretamente delas deve pertencer ao próprio aprendiz, e nenhuma regra que lhe possa estar prescrita para este propósito estará segura de abuso quando faltar um tal dote natural". (Immanuel Kant, 1980, p.102)
2) O positivismo ou empirismo lógico contemporâneo tem, entre seus representantes ou simpatizantes, Ernest Nagel, Carl Hempel e Rudolf Carnap. Uma boa coletânea de artigos representativos desta corrente filosófica encontra-se em Alfred Jules Ayer, El Positivismo Logico, 1965.
3) Veja-se, por exemplo, David Hume, 1972 e 1978.
4) Feyerabend utiliza estas expressões em Consolando o Especialista, em I. Lakatos & A. Musgrave, 1979.

Bibliografia

1) AYER, Alfred Jules. El positivismo logico. México: Fondo de Cultura Economica, 1965.
2) FEYERABEND, Paul. Contra o método. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977.
3) HUME, David. A treatise of human nature. Glasgow: Fontana/Collins, 1978, v.1.
4) HUME, David. Investigação acerca do entendimento humano. São Paulo: Companhia Editora Nacional/EDUSP, 1972.
5) KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
6) KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1975, Col. Debates, n.115.
7) LAKATOS, Imre; MUSGRAVE, Alan. A crítica e o desenvolvimento do conhecimento. São Paulo: Cultrix, 1979.
8) NAGEL, Ernest. Ciência: natureza e objetivo". In:MORGENBESSER, Sidney. Filosofia da ciência. São Paulo: Cultrix, 1967.
9) POPPER, Karl. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 1975.
10) POPPER, Karl. Conhecimento objetivo. São Paulo: EDUSP, 1975.

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