A EAD e o modelo de competências

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Gilda Helena B. de Campos *

Recentemente, comecei a trabalhar com o modelo de competências para entender como melhorar os processos de desenvolvimento de software e a construção de conhecimentos em cursos a distância. Tenho estudado e acompanhado também o desenvolvimento da dissertação de mestrado de Gianna Oliveira Roque, do Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NCE/UFRJ), que discute o modelo de competências.

De lá para cá, muito já se aprendeu sobre competência e habilidades a serem trabalhadas em cursos a distância. A seguir, apresento algumas definições e princípios discutidos por Gianna Roque, que tomou como base artigos de diversos autores.

A noção de competência

Gianna diz que a palavra "competência" pode ser usada em diferentes ambientes, que sugerem diferentes conotações pelo fato de a noção de competência pertencer, ao mesmo tempo, à linguagem comum e à terminologia científica. Esse polimorfismo permite que a noção de competência seja confundida com a de saberes e conhecimentos no âmbito da educação ou de qualificação no âmbito do trabalho.

Em um artigo publicado em 2001 por Marise Nogueira Ramos, a idéia difundida quanto ao uso de competência pela escola é a noção de que ela promove o encontro entre trabalho e formação, enquanto do ponto de vista empresarial competência se confunde com qualificação.

Essa abordagem tem duas dimensões bem definidas: uma relativa ao trabalho e a outra à prática pedagógica. Na visão de trabalho, a competência é definida como características de fundo de um indivíduo que guardam uma relação causal com o desempenho efetivo ou superior no posto. Portanto, ela reflete a capacidade de se fazer algo e não o que realmente faz.

Na visão pedagógica, o professor e sociólogo Phillipe Perrenoud define competência como "a capacidade de articular um conjunto de esquemas, situando-se, portanto, além dos conhecimentos, permitindo mobilizar os conhecimentos na situação, no momento certo e com discernimento".

No Brasil, a noção de competência é introduzida na reforma educacional por volta dos anos 90, a partir da Lei nº 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), que incide tanto na educação básica, quanto na educação profissional.

Diferentes autores afirmam que a introdução dessa noção vem com o objetivo de subordinar a produção educacional às necessidades do mercado de trabalho. Neise Deluiz, por exemplo, afirma que "o modelo das competências invade o mundo da educação no quadro de questionamentos feito aos sistemas educacionais diante das exigências de competitividade e produtividade".

Por fim, Gianna Roque considera a competência como a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos (saberes, habilidades, conhecimentos etc.) para solucionar uma série de situações.
Para os saberes, a literatura considera três dimensões: saberes, saber ser e saber fazer. As definições a seguir mostram os diferentes aspectos contidos nessa questão:

Os saberes dizem respeito aos conhecimentos, aos saberes em uso, ao saber teórico, formalizado e prático, aos saberes que podem ser transmitidos e que são adquiridos tanto na educação formal quanto na informal. Os saberes teóricos podem ser representados pelo saber técnico, que traduz o que deve ser feito, e o saber metodológico, traduzido em como deve ser feito.

O saber ser refere-se aos valores de um indivíduo, suas características pessoais e culturais, sua capacidade de se comunicar, interagir, adaptar-se a novas situações, entre outras. As capacidades de ordem psicológica também são levantadas por alguns autores, como saber agir e reagir com pertinência, combinar os recursos e mobilizá-los em um contexto, transportar, se engajar, aprender e "aprender a aprender".

Por último, temos o saber fazer, que está relacionado à aplicação dos conhecimentos e reflete as habilidades como resultado das competências adquiridas. A ênfase dada ao saber fazer faz com que alguns autores considerem que a noção de competência está ligada apenas à aquisição de conteúdo. Isso a aproximaria do paradigma tecnicista, por dar um valor maior aos resultados observados em detrimento dos saberes subjetivos.

O fato de esse modelo de ensino associar o saber fazer ao mundo produtivo e aos conhecimentos especializados leva alguns autores a considerar esta abordagem meramente técnica, instrumental e aplicada, remetendo ao uso de um referencial individualista e pragmático.

Vale ressaltar que a importância dada à formação profissional para o desenvolvimento das competências, na verdade, não está demandando apenas conhecimentos técnicos refletidos no saber fazer.

Dependendo da formação profissional que se quer atingir, será necessário desenvolver capacidades relativas ao conhecimento, incluindo as formas de comunicação e o domínio da linguagem, o desenvolvimento de raciocínio lógico-formal, além de aspectos culturais. Uma das conseqüências das competências adquiridas seria a inclusão na vida social e produtiva.

Uso das competências

Segundo Marise Nogueira Ramos, o uso da noção de competências em cursos e disciplinas tem como finalidade promover o encontro entre trabalho e formação por meio da passagem de um ensino centralizado em saberes disciplinares a um ensino definido pela produção de competências, que podem ser verificadas em situações e tarefas específicas.

A formação humana deve ser integral e sólida, para que as pessoas sejam capazes de atender às demandas da vida moderna, que exige, entre outras coisas, habilidades mais complexas, tais como comunicação e expressão, análise crítica das informações, pesquisa e estudo autônomo em diferentes fontes de conhecimento. A educação deve, portanto, proporcionar uma formação mental-cognitiva, social, e de capacidade de realização.

O conceito de aprendizagem como sendo simplesmente a transmissão de um conteúdo deve mudar. O aluno deve estar envolvido no processo de aprendizagem para sentir a necessidade do mesmo, pois esta necessidade é que motiva a construção do conhecimento. A integração do aluno nesse processo se dá no momento em que os saberes se tornam significativos para ele. É necessário que ele perceba por que está realizando cada tarefa e qual é o valor real de cada etapa do processo.

A compreensão do que está sendo aprendido é fruto do relacionamento entre os novos saberes e nossos conhecimentos anteriores, que são desestabilizados e reconstruídos. Para isso, é necessário que os professores descubram, por meio de questionários e debates, por exemplo, quais são os conhecimentos prévios dos alunos, sua visão do mundo e da vida profissional.

Para desenvolver as competências dos alunos, o professor deve programar atividades de acordo com o tipo de competência que se quer desenvolver, como a capacidade de concentração, de síntese, de crítica, de planejamento, entre outras. Portanto, o professor deve estar preparado não só didaticamente como também possuir técnicas e dinâmicas de ensino.

O trabalho coletivo deve ser estimulado, a fim de desenvolver no aluno habilidades sociais e éticas. Ele deve ser um objetivo institucional, com tempo e espaço previsto no processo de ensino e aprendizagem.

Comentários finais

Os cursos a distância baseados na Web procuram atender a um número muito grande de pessoas, que buscam o aprendizado como forma de dar continuidade à educação ou aprimorar conhecimentos necessários neste mundo competitivo. Algumas características da EAD estão em estreita relação com a definição de competências. Entre elas, podemos citar:

Comunicação não-direta – A separação física entre aluno e professor faz com que a transmissão dos saberes seja realizada por meios de comunicação;

Comunicação bidirecional - Caracterizada pela utilização de meios de comunicação que permitam a interação entre os participantes de um curso;

Aprendizado autônomo e flexível – O aluno se torna responsável pelo seu processo de aprendizado, na medida em que decide quando e como aprender. Neste sentido, o aluno deve "aprender a aprender".

Estas características apontam para a capacidade do indivíduo de prover os recursos necessários para enfrentar tais situações e a conseqüente mobilização de suas estruturas conceituais.

Assim como nos cursos presenciais, a educação a distância deve ter em mente a mesma preocupação com a qualidade do processo de aprendizagem. Faz-se necessário, porém, definir as ferramentas, instrumentos e os meios a serem utilizados na verificação da aprendizagem, visto que eles possuem características próprias.

Para isso, deve-se analisar estas ferramentas no sentido de adequá-las às competências requeridas. Pode-se pensar, por exemplo, em utilizar uma prova para verificar conhecimentos teóricos, uma análise de estudo de caso para verificar conhecimentos práticos, e desenvolver projetos para mobilizar os conhecimentos adquiridos. Além disso, as habilidades de comunicação e interação podem ser verificadas pela participação em listas de discussão, em fóruns de debates e salas de bate-papo.

Outros instrumentos, como seminários, portfólios, observação da resolução de problemas, resolução de listas de exercícios automatizadas, respostas a questões abertas, entre outros, também podem ser utilizados. A partir de cada um deles é que as competências podem ser construídas e observadas. Pense nisso.

FONTE:http://www.timaster.com.br/revista/artigos/main_artigo.asp?codigo=910&pag=1