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 ARTE CRISTÃ


Chama-se ARTE PRIMITIVA CRISTÃ a arte dos cinco primeiros séculos do aparecimento do cristianismo.

Divisão

A Arte Primitiva Cristã divide-se em dois períodos: antes e depois do reconhecimento do Cristianismo como religião oficial do Império Romano.
O reconhecimento do Cristianismo como religião oficial do Império Romano foi feito pelo imperador Constantino, no Édito de Milão no ano 330 da nossa era.

- A Fase Catacumbária

A fase anterior ao reconhecimento chama-se Catacumbária, porque as suas principais manifestações ocorreram nas catacumbas, cemitérios subterrâneos, verdadeiros hipogeus, nos quais os primeiros cristãos sepultavam seus mortos e mártires. 
A fase catacumbária estende-se do I século ao início do IV século, precisamente ao Édito de Milão.

- A Fase Cristã Primitiva

A fase posterior ao reconhecimento, quando o Cristianismo deixou de ser perseguido e substituiu, oficialmente, entre os romanos, as crenças do paganismo, tem sido determinada Arte Latina por alguns historiadores. Deve ser chamada, porém, de modo mais adequado, Arte Cristã Primitiva propriamente dita.
Essa fase, Arte primitiva Cristã, desenvolve-se dos anos de 330 ao de 500, quando as artes do Cristianismo começam a dividir-se em dois grandes ramos - um oriental e outro ocidental.

As Artes Bizância e Romana

Ao contrário do ocidental, o ramo oriental da Arte Cristã Primitiva aparece mais cedo, naquele mesmo ano de 500.
É a arte Bizantina, que denomina-se assim, porque o seu principal centro de irradiação foi a antiga cidade grega de Bizâncio, transformada em Constantinopla, no ano de 330, pelo imperador Constantino, para servir de nova capital ao Império Romano.
A arte bizantina reúne várias influências - gregas clássicas, asiáticas e européias. Dura praticamente mil anos, desde o reinado do Imperador Justiniano, notável por suas leis e iniciativas administrativas, meados do século VI, à conquista de Constantinopla pelos turcos, em 1453, data convencionalmente escolhida para marcar o fim da Idade Média e o início dos Tempos Modernos.
O ramo ocidental da Arte Cristã Primitiva vai definir-se mais tarde, no século X, através de lentas e diversificadas elaborações. Nessas elaborações estilísticas, intervém numerosos fatores históricos e sociais, como as invasões dos povos chamados bárbaros, e sensíveis às influências orientais, particularmente bizantinas, pela importância econômica e política de Bizâncio no mundo medieval.
Esse ramo ocidental recebe a denominação de Arte Românica, porque as suas formas derivam fundamentalmente de Roma antiga, apesar das influências diversas que vão recebendo do decorrer dos tempos.
Antes dessas formas românicas, ente os séculos VI e X havia na Europa ocidental as artes dos povos bárbaros, os quais, uma vez instalados nas regiões conquistadas, vão dar origem às modernas nações européias. Essas artes dos povos em migração não possuem, porém, características definidas. 



Estende-se do século I ao início do século IV. Corresponde, portanto, à época das perseguições movidas aos cristãos, com maior ou menor intolerância e crueldade, por imperadores romanos. A perseguição desenvolvia-se praticamente em todo o Império, em algumas partes com mais brandura, especialmente em certas regiões da Ásia Menor, nas quais houve mesmo tolerância com a nova religião, que se misturava com velhos cultos pagãos locais, vindos dos egípcios e caldeus. Por isso mesmo, ali são mais precoces as transformações da primitiva arte cristã.
Arquitetura - Sendo uma religião perseguida, alvo da vigilância e repressão das autoridades, as práticas cristãs se faziam ocultamente.
Desse modo, na fase catacumbária, não existe praticamente arquitetura. Pensou-se, durante muito tempo, que os fiéis se reunissem no interior das catacumbas para celebração do culto. Está provado hoje, por investigações arqueológicas, que faziam dentro de residências, em Roma e outras cidades, geralmente à noite, sob o temor da prisão, tortura e morte. As catacumbas serviam apenas para o sepultamento.
Nos primeiros tempos, os cristãos eram sepultados nos cemitérios pagãos. Deixaram de fazê-lo por dois motivos: primeiro porque adotaram a prática da inumação, contrária à incineração, usada pelos pagãos; segundo, porque os pagãos consagravam os cemitérios ás suas divindades.
Nas residências, utilizavam salas, com altares improvisados, para os ofícios divinos, os ágapes ou banquetas de amor, como se chamavam, depois transformados na cerimônia da missa. Algumas casas mais ricas chegaram a possuir uma espécie de templo, com disposição e instalação adequadas.
Não podem ser considerados obras de arquitetura os trabalhos, muitas vezes toscos, de sustentação de paredes e tetos ou ampliação de espaço, executados nas catacumbas. Estas, como sabemos, se constituíam de galerias subterrâneas que se cruzam e entrecruzam, em diferentes níveis, superponde-se, constantemente, em extensões consideráveis de centenas de quilômetros.
As galerias de circulação, estreitos corredores, denominam-se ambulacra ou ambulatórios. Os corpos eram depositados em nichos retangulares, chamados loculi, abertos na parede se superpostos em fila. Uma placa de mármore ou de pedra, com o nome do morto acompanhado de piedosa invocação, fechava a abertura. Quando se reuniam diversos loculi em sepulturas de família ou pequenos altares, dava-se a denominação de cubiculum. Os loculi maiores possuíam um arco, às vezes sobre colunas. Era o arcosolium, continham geralmente um sarcófago de mármore. Algumas galerias recebiam aeração e luz por aberturas superiores, lucerna. 
Em algumas catacumbas, construíam-se criptas, para deposição de ossos de mártires ou despojos de papas, muitas das quais no primeiro século do reconhecimento. Nas catacumbas de Santa Priscilla, existe a capela grega, e nas de São Calisto, a Cripta dos Papas, ambas de Roma. São pequenos recintos, tetos abobadados ou planos, sustentados por arcos e colunas, decorados de pinturas e com vestígios de escultura em estuque.
Em resume, estes os três elementos arquitetônicos existentes nas catacumbas.
Catacumbas - As maiores catacumbas e mais famosas são as de Roma, ao longo das grandes e históricas vias imperiais, pois as leis romanas proibiam o sepultamento no interior dos recintos das cidades.
Evocam a memória de santos e mártires, chamando-se São Pretextato, São Sebastião, São Calisto e Santa Domitila. Existiram também em outras cidades italianas, em Nápoles, Siracusa, assim como na África do Norte e Ásia Menor. Não serviram, como dissemos, à celebração de culto. Foram cemitérios e locais de reunião e refúgio, nas épocas de maiores perseguições. Em Roma, são hoje locais de visitação turística e peregrinação.
Para construí-las, os cristãos escolhiam terrenos apropriados ou aproveitavas as escavações deixadas pela exploração das jazidas de pozzolana, que é uma rocha vulcânica porosa, que se triturava para obter uma espécie de cimento, utilizado no preparo da argamassa de construção. Transformadas em catacumbas, as antigas galerias de pozzolana foram ampliadas e solidificadas.
Quanto aos terrenos, preferiam os de tufo, tufa granolare, camadas do subsolo constituídas de sedimentos e depósitos de matérias pulverulentas, acumuladas pela água, que formam uma pedra compacta, também porosa, utilizada em construção.
A caprichosidade do traçado das catacumbas resulta da resistência ou impropriedade do subsolo que os operários cavadores, chamados fossores, iam encontrando. Nas pinturas catacumbárias aparecem ingênuas e tocantes homenagens a esses trabalhadores. 
Depois do reconhecimento, ou da paz oficial da Igreja, os cristãos foram abandonando-as como locais de sepultamento. Preferiam enterrar os mortos nos terrenos das igrejas e conventos ou cemitérios públicos. Entre os séculos IV e VII, transformaram-se em locais de peregrinação. Receberam decorações, altares e criptas. Os peregrinos retiravam e levavam relíquias de santos e mártires, em tamanha quantidade, que as autoridades eclesiásticas se viram na contingência de intervir, proibindo semelhantes práticas. 
A partir do VII século, caíram no esquecimento, por todo o resto da Idade Média estiveram praticamente ignoradas. Em plena Renascença, sob emoção popular fácil de imaginar, principalmente quando ia no auge a luta contra a reforma protestante de Lutero, foram redescobertas por acaso em 1578. Um antiquário romano, Antonio Bosio, estudou-as num livro Roma Subterrânea. No século passado, seus estudos foram ampliados por um arqueólogo italiano João Battista de Rossi (1822-1894), que publicou obras ainda hoje fundamentais pela objetividade e segurança das informações.
As demais catacumbas, em outras partes do mundo, inclusive catacumbas de cristãos heréticos e judeus, foram igualmente objeto de investigações e estudos que entre novas descobertas ainda hoje se desenvolvem, para melhor conhecimento das manifestações iniciais da arte cristã primitiva.
Escultura - Um traço geral observa-se nas criações dos primeiros tempos catacumbários: o rudimentarismo da técnica e a pobreza de expressão.
São obras de inspiração popular, elementares de execução e ingênuas de sentimento, reveladoras de suas origens entre artesãos ou artistas improvisados, senão autodidatas. Explica-se o fato pela difusão inicial do Cristianismo ter sido feita entre as camadas sociais inferiores do Império, homens e mulheres do povo, trabalhadores, escravos e bárbaros, sem os requintes de técnicas e expressão dos artistas a serviço das classes superiores dominantes e ainda paganizadas.
Só mais tarde, quando a nova crença começa a difundir-se também entre as camadas sociais elevadas, capazes de mobilizar artistas profissionalmente formados e capazes, por sua vez, de exprimir os ideais estéticos, passa-se a observar melhor nível técnico e expressivo, sobretudo no século anterior ao reconhecimento.
Mas, de uma forma ou de outra, não se encontram muitas esculturas nos primeiros tempos. Os cristãos eram tomados de natural prevenção contra a estatuária, temerosos do pecado da idolatria, que condenavam e denunciavam nos pagãos. As estátuas das divindades mitológicas, nuas, regulares e de belas de formas que falavam aos sentidos, eram encarnações do mal aos olhos cristãos, sugestões do demônio, tentações da carne, que cumpria evitar e destruir.
Sabe-se que, nessa fase e, principalmente, depois do reconhecimento, os cristãos lançaram-se, num zelo fanático e cego, insuflados pelos sacerdotes, à destruição de ídolos pagãos. Desapareceram assim, irreparavelmente, numerosas obras de arte da antigüidade clássica greco-romana. Os crentes da religião, agora perseguida procuravam salva-las por todos os meios, enterrando-as muitas vezes e legando-as, involuntariamente, aos nossos dias.
Quando se amortecem os extremismos doutrinários dos primeiros tempos e os perigos da idolatria parecem atenuados, como também as prevenções com o naturalismo sensualista da escultura pagã, surgem os escultores cristãos primitivos, mesmo nas catacumbas e durante as perseguições.
Esses artistas voltam-se, natural e compreensivelmente para tipos humanos e os temas ornamentais da escultura helenística pagã. O Cristianismo ainda não criara os seus tipos ou a sua iconografia, valendo-se dos modelos existentes que jaziam no subconsciente coletivo e da experiência de artistas formados dentro das tradições greco-romanas.
Os escultores, aplicam-se, de modo especial, à execução de sarcófagos de mármore, numa literal imitação dos modelos romanos.
Na técnica e na expressão, esses sarcófagos são pagãos, transposições dos baixos relevos peculiares da decadência da escultura romana. As figuras são bem proporcionadas e realistas, tocadas de sentimento helenístico na representação de cenas do Velho e do Novo Testamento. Na face lateral, um medalhão, um busto do morto, geralmente marido e mulher, numa reminiscência dos usos funerários etruscos. Apresentam naturalmente variações de técnica e de estilo através dos tempos.
Na categoria de escultura, podem ser mencionadas figurinhas em cerâmica de animais e pássaros simbólicos, a pomba, o peixe, o leão, a águia, o pavão, o cavalo, assim como lâmpadas funerárias, geralmente de barro. Há também numerosos vasos de cerâmica. Acreditava-se tivesse contido sangue de mártires, por vestígios de coloração avermelhada. Numerosos autores os consideram, porém, recipientes de perfumes e óleos aromáticos.
Pintura - Desde os movimentos iniciais da propagação da nova fé, os cristãos defrontaram-se com o problema de criar a sua imaginária, em outras palavras, a representação de Deus e de Cristo, da Virgem e das cenas das Escrituras Sagradas, ao lado das verdades e dogmas da fé.
Como representar, por exemplo, a Anunciação, a Natividade, o Batismo e a Eucaristia, conforme os sentimentos e as idéias dos cristãos? Esses problemas de simbologia e de plástica foram sendo solucionados através dos tempos, pelos pintores catacumbários, entre sugestões e influências inevitáveis do mundo pagão.
As primeiras decorações catacumbárias, figurativas ou ornamentais, sã ingênuas e simples, obras de verdadeiros autodidatas. Tendem inicialmente ao simbólico e abstrato, revelam depois influências do modelos greco-romanos, que estavam aos olhos de todos. Muitas vezes são desenhos de incisão, executados a fresco sobre uma camada de estuque, desaparecidos em grande parte ou apenas visíveis hoje, nos traços gerais. No desenho e no colorido, os autores são frustros, sem maior segurança técnica e poder de expressão. 
Com o passar do tempo, adquirem maior destreza e melhores recursos de expressão. São agora sensíveis à influências da pintura romana erudita, particularmente a pompeiana de finalidades decorativas. Os pintores aplicam o claro-escuro, combinam com maior variedade as cores e proporcionam bem as figuras humanas. Aparecem os primeiros mosaicos coloridos catacumbários, que mostram influências orientais e sugestões dos desenhos de manuscritos.
Os artistas usam símbolos variados, há símbolos abstratos, como um círculo, que representaria Cristo, por associação com o disco solar. O disco aposto numa cruz poderia ser simbolicamente a Crucificação, cena cuja representação foi evitada nos primeiros séculos. A simbologia cristã primitiva é muito rica, sendo melhor, neste momento, resumir dizendo que, ao lado dos abstratos, multiplicam-se os símbolos figurativos. Os mais comuns são o peixe, a pombinha com o ramo de oliveira no bico, o pavão, a âncora, o lírio, o cacho de uva, a espiga de trigo, dentre outros.
O peixe era Cristo, pois as inicias das palavras gregas Jesus Cristo de Deus Filho Salvador formam ichtus, peixe em grego. A pombinha com o ramo de oliveira no bico, alusão ao episódio de Noé. O pavão, símbolo da eternidade. A âncora, salvação pela firmeza da fé e, muitas vezes, a cruz do Calvário. O lírio, pureza, O cacho de uva, o sangue de Cristo, como a espiga de trigo, o pão da Eucaristia. A serpente, entre os pagãos, símbolo das energias da terra, passa, entre os cristãos, a símbolo do Mal.
Alguns episódios sagrados representam-se com especial preferência. São sempre os mesmos - Noé na arca, Abraão preparando-se para sacrificar Isac, Jonas vomitado pelo monstro marinho, Daniel na cova dos leões, os três jovens hebreus na fornalha, Suzana e os velhos. Os milagres de Cristo são poucos e também sempre os mesmos - a recuperação do cego, a cura do paralítico e a ressurreição de Lázaro. 
A preferência dos pintores por esses temas, é que na Igreja de Antióquia, centro prestigioso de Cristianismo, recitava-se à cabeceira dos moribundos uma oração, depois conhecida e popularizada em Roma. Nessa oração fazia-se referência aos episódios que os pintores passariam a representar com tanta insistência nas catacumbas.
Por outro lado, os pintores apoderaram-se de muitos símbolos da mitologia, conferindo-lhes significação cristã. Orfeu, por exemplo, com sua lira aplacando as feras, passou a simbolizar o próprio Cristo, amainando, com a palavra divina, as paixões do mal. Ulisses, amarrado ao mastro da embarcação, resistindo às sereias, era a alma cristã, que resistia à tentação dos pecados. Eros e Psique são representados, mas como símbolos da alma que se une a Deus pelo amor.
Isto não é de admirar. Nos primeiros séculos, os padres buscavam apoio das verdades da fé nas profecias das próprias sacerdotizas pagãs, observa Raoul Rouaix, que chama a nossa atenção para as sibilas da mitologia, pintadas por Michelangelo, no teto da Capela Sistina do Vaticano, numa sobrevivência dessa tradição.
A Orante - A representação do crente em oração foi outro problema para os pintores catacumbários.
A oração é a união da alma com Deus. Como representar isto de modo simples e acessível às populações incultas e incrédulas? Encontraram a solução numa figura feminina de pé, braços abertos, mãos para o alto, olhos no céu, em atitude de êxtase. São as Orantes, comuns nas catacumbas dos primeiros séculos.
Cristo e a Virgem - Apareceram também o Cristo, a Virgem e o Menino. A representação de Cristo sofre. Alternativamente, duas influências, a grega e a síria.
A grega representa-o adolescente e imberbe, sob formas apolíneas, belo e vigoroso rapaz. Na Síria, depois universalizada, vemo-lo viril e de barbas, homem feito, amorenado. É o tipo que ficará alourado nas regiões nórdicas européias, para satisfazer os ideais estéticos de beleza humana das populações claras.
A figura de Cristo foi, aliás, objeto de muitas discussões nos séculos iniciais do Cristianismo. Para o teólogo Tertuliano, respeitado pela austeridade, Cristo deveria ser feio, talvez horrível, para que não caíssemos na tentação da beleza terrena. Para São João Crisóstomo, deveria ser de bela presença, a fim de atrair as almas, tanto pela beleza como pela sabedoria. Predominou esta opinião, Cristo é bonito.
Representam-no, mais de uma vez, na figura do Bom Pastor, que leva aos ombros a ovelha desgarrada do rebanho de fiéis, reconduzindo-a ao seio da Igreja. Esta representação é uma adaptação do Moscóforo grego, estátua bastante conhecida, que conduz do mesmo modo um bezerro ou ovelha ao sacrifício ritual no altar do templo, A representação de Cristo sofre através dos tempos alterações constantes, que serão referidas com maior desenvolvimento, quando tratarmos da arte bizantina. 


Perseguido por três séculos, o Cristianismo vê-se finalmente elevado à categoria de religião oficial do Império Romano, graças à Constantino, que se converteu à nova fé.
Uma vez oficializado, defronta-se imediatamente com as necessidades do culto público, isto é, a necessidade de locais adequados à reunião dos fiéis, cada vez mais numerosos, e à celebração dos atos litúrgicos.
Inaugura-se, desse modo, a segunda fase da Arte Cristã Primitiva, também denominada "Arte Cristã depois da Paz da Igreja".
Arquitetura - A necessidade mais imediata é a de locais para reunião dos fiéis e celebração do culto.
O templo cristão será necessariamente diferente do templo pagão. Vimos que o templo grego era apenas a morada do deus. Não precisava de grandes dimensões e maiores espaços interiores, pois os fiéis nele não penetravam e os sacrifícios se faziam num altar situado no pátio fronteiro. Sua maior beleza, estava, portanto, no exterior. Era afinal para ser apenas contemplado e admirado e não utilizado pelo fiel.
Templo cristão, ao contrário, destina-se a reunir grandes assembléias de crentes no seu interior. Deve atender, portanto, a exigências de amplos espaços internos e dar ao crente a atmosfera mística adequada ao sentido transcendente da nova religião. Eis porque, sobretudo nos primeiros tempos, os arquitetos cristãos não possuirão muito o espírito de fachada ou de beleza exterior, que vai acentuar-se, mais tarde, nas arquiteturas góticas e renascentistas.
Todos os cuidados voltam-se para o interior, não só para criar espaço, também para sugestionar, pela estrutura e decoração, o espírito do crente. A igreja bizantina, por exemplo, externamente simples e inexpressiva, tem interiores que deslumbram, revestidos de cintilantes e suntuosos mosaicos, de mármores, de cores variadas e de calculados efeitos luminosos.
Logo que se converteu, Constantino determinou a construção de templos em Roma e Jerusalém. Surgem então as primeiras basílicas cristãs. Em Roma constroem-se a de São João de Latrão e da São Pedro.
A primeira foi assim chamada por ter sido construída junto ao Palácio de Latrão, antiga residência do Senador romano Justus Lateranus, que havia sido doada pelo Imperador ao Papa Silvestre I, para moradia oficial dos pontífices. Torna-se a primeira, a mãe venerável de todas as igrejas cristãs. No decorrer dos séculos sofre incêndios e tantas modificações, que presentemente quase nada conserva de suas formas primitivas, bastando dizer que sua fachada atual data de 1743.
A de São Pedro, substituída na Renascença pela atual igreja de São Pedro do Vaticano, foi construída na área do antigo circo de Nero, onde crucificaram o Apóstolo. Destruindo o circo, Constantino levantara a basílica, que resistiu onze séculos, ao tempo e ao homem, transformando-se num dos monumentos solenes da cristandade. Nos meados do XV século, estava se arruinado. O Papa Nicolau V resolveu reconstruí-la e amplia-la. A obras iniciaram em 1450, sob a orientação dos arquitetos florentinos Bernardo Rosselino e Leo Battista Alberti. Os trabalhos arrastavam-se. Subindo ao trono papal em 1503 e apesar dos protestos da população romana, que amava o velho templo, Julio II demoliu-o e confiou ao arquiteto Bramante a construção da atual igreja, com a cúpula projetada por Michelangelo, incomparavelmente maior e concluída quase um século e meio depois.
Às basílicas de Constantino foram sucedendo-se outras em Roma, geralmente simples por fora, mas ricas por dentro, decoradas de mosaicos, afrescos, mármores, esculturas e talhas de madeira colorida e dourada. A de Santa Maria Maior é uma das mais típicas, ostentando mosaicos famosos. Sua construção data de 352, por iniciativa do Papa Libério. No século XVIII, recebia a atual fachada barroca. Outra basílica romana ilustre é a de São Paulo Extra-Muros, obra do imperador Valentiniano, no local de antiga basílica constantiniana, construída sobre o túmulo do Apóstolo. Em 1823 o fogo devorou-a quase toda, tendo sido reconstruída pelo Papa Leão XIII.
A Basílica - É o monumento característico da arquitetura cristã primitiva.
Suas origens são hoje objeto de controvérsias entre os arqueólogos e historiadores de arte. Muitos consideram originária da basílica civil romana, estudada quando cuidávamos da arte entre os romanos, origem que se apóia nos próprios fatos. Outros autores, mais exigentes e minuciosos, apontam influências diversas, egípcias, sírias e finalmente, romanas. Na verdade, porém, deriva diretamente da basílica civil romana.
A planta típica da primitiva basílica cristã pode ser representada pela de São Pedro de Roma, construída no século IV por Constantino e substituída na Renascença pela atual de São Pedro do Vaticano. Depois de uma escadaria nem sempre existente, atinge-se a um pórtico, que comunica com vasto pátio, chamado atrium e cercado de galerias de colunas. No centro do pátio, acha-se a fonte, transformada depois no batistério ou pia batismal, para purificação dos novos conversos, eu só assim, depois de purificados, poderiam penetrar no templo.
No fundo do atrium, no eixo vertical da planta, imponente pórtico ou vestíbulo, o narthex, dando acesso ao interior do templo, que se divide em três ou cinco naves, separadas pelas fileiras de colunas, que sustentam o teto plano de armação de madeira. A nave maior chama-se central e as demais laterais. Separando a nave central do transepto, verdadeira nave perpendicular, acha-se o arco triunfal, em plena cintra, majestoso e decorado de mosaicos multicores. No eixo da nave central, ao fundo, um nicho de forma semicircular, a abside, cuja superfície interior, curvilínea está igualmente decorada de mosaicos ou afrescos. Defronte da abside o altar, aos lados, a dependência da administração e serviço do culto.
No correr dos tempos, quando chegarmos à arte românica, encontraremos substanciais modificações nessa planta. O transepto, por exemplo, amplia-se para os lados, dando-lhe a forma de uma cruz latina de braços desiguais. No cruzamento do transepto com a nave central, os arquitetos românicos levantam muitas vezes uma torre e, mais tarde, os renascentistas e barrocos, colocam uma cúpula.
O transepto, onde ficavam os membros das irmandades religiosas, naquelas épocas cada vez mais numerosos, separava-se da nave central por pequena grade, ainda hoje existente em nossas igrejas, chamada cancela. No local da antiga basílica romana onde sentava o magistrado, diante da tábula, para decidir dos litígios ou legalizar os contratos ou negócios, senta agora o celebrante do ofício religioso. A tábula ou mesa do magistrado transforma-se no altar. Aos lados, os púlpitos, antes ocupados pelos contratantes ou seus advogados, são agora ocupados pelos pregadores cristãos. A cancela, que separava as partes e as testemunhas, na basílica romana, agora separa do público os membros das irmandades religiosas. A estátua da divindade pagã ou do imperador romano, que se erguia na abside, foi substituída pela imagem de Cristo ou do padroeiro do templo.
Estamos vendo que, nas suas linhas gerais, a planta da primitiva basílica cristã era uma adaptação da planta da basílica civil romana, que cumpria, a um só tempo, as finalidades de tribunal, mercado e cartório.
O teto era interiormente plano de madeira lavrada, com almofadões decorados e quase sempre dourados. A cobertura, em duas águas, assentando-se sobre estruturas de madeira. A iluminação fazia-se por janelas na nave central, mais elevada do que as laterais.
Esse tipo basilical predomina na arquitetura cristã do ocidente até o aparecimento das formas arquitetônicas denominadas pré-românicas. A beleza do interior dessas antigas e vastas basílicas cristã primitivas, como Santa Maria Maior e Santa Sabina, em Roma, está não apenas nas decorações murais, geralmente de mosaicos coloridos, na diversidade das cores dos mármores ou na talha luxuosa da madeira dos tetos.
Os construtores adotavam as regras e princípios de proporções da arquitetura clássica grega. Eram muito cuidadosos nesse particular. O comprimento, a largura e a altura da nave central, por exemplo, obedeciam à proporções demoradamente estudadas e estabelecidas. O interior dessas basílicas comunica ao visitante sentimentos sutis de ordem e de serenidade, que a riqueza e o sensualismo das decorações não chega a perturbar, antes parece acentuar. Pressente-se uma sabedoria oculta.
Mais tarde, algumas receberiam decorações em outros estilos, ostentosos e rebuscados, como o barroco e o rococó. Mas permanece o equilíbrio harmonioso das estruturas, proporcionadas no mesmo espírito matemático com que os arquitetos greco-romanos sabiam compor a morada dos seus deuses.
Escultura - A escultura manifesta-se sobretudo nos sarcófagos, que se inspiram diretamente nos modelos alexandrinos e romanos.
Na representação dos temas religiosos, introduzem-se constantes sugestões pagãs, tanto na composição como na expressão dos sentimentos. Aquela pureza e ingenuidade iniciais das catacumbas, o temor da idolatria, a prevenção com as formas regulares e proporcionadas, a beleza anatômica, tudo isso pertence naturalmente ao passado. São evidentes as influências da escultura helenística, realista, dramática, tantas vezes sensual, e do sentimento bucólico da natureza, bastante peculiar aos escultores de Alexandria.
A representação de Cristo faz-se diversamente, em estátua ou baixo-relevo. Faz-se ora com o tipo grego, o rapaz apolíneo e imberbe, rosto tocado de vida interior ausente nos clássicos. Faz-se ora com o tipo sírio, homem feito, barba espessa, meigo e moreno. Em ambos os casos, porém, sempre uma serena dignidade, por assim dizer intocado. Só mais tarde vamos encontra-lo humilhado, açoitado ou aureolado de espinhos. Nas cenas da coroação de espinhos, observa ainda Emile Male, a coroa é triunfal, mantida por um centurião suspensa sobre a divina cabeça.
A escultura realiza-se sobretudo através dos sarcófagos. Não são numerosas as estátuas conhecidas, ainda que estivesses bastante apagadas, como dissemos, as prevenções idolátricas.
Pintura - Ao contrário do primeiro século, quando se usa em larga escala a pintura a fresco, os mosaicos predominam na decoração mural. Certamente que se impunham tanto pela durabilidade como pela suntuosidade ornamental.
Muitos desses primitivos mosaicos cristãos se destacam pelas qualidades artísticas. Nesse caso, estão os da Igreja de Santa Pudenciana em Roma. Ostentam majestosa figura do Cristo sírio, cercado magnificamente dos Apóstolos. Em Roma como em toda a parte, os mosaístas recebem influências das ilustrações dos manuscritos e distinguem-se por maior realismo. Distanciam-se bastante, como uma simples comparação poderá mostrar, do convencionalismo bizantino e chegam-se mais à observação da realidade.
A difusão da técnica da pintura a fresco vai observar-se mais tarde, a partir do X século, quando começa a definir-se a Arte Românica, o segundo grande ramo ou o grande ramo ocidental da primitiva arte cristã, que tinha vindo, como acabamos de ver, do medo e da obscuridade das catacumbas.

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